Superdotação e dupla excepcionalidade exigem rede de apoio para além do QI
Publicada em 25 de maio, 2026.
Atualizada em 21 de agosto, às 04:00.

Viver com superdotação e dupla excepcionalidade é como colocar um motor de Fórmula 1 dentro de um Fusca. A potência do sistema é gigante, mas a estrutura ao redor precisa de ajustes constantes para que o carro não balance nas curvas do dia a dia.
Essa é a realidade que a nutricionista Raquel Dias Viana vive com a filha. Aos seis anos, a menina falava sobre mitologia com naturalidade, mas se sentia deslocada e não conseguia interagir com crianças da mesma idade na escola. Ela recebeu o diagnóstico de superdotação combinado com TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade), um cenário conhecido como dupla excepcionalidade.
O caso ilustra um mito comum: a ideia de que pessoas superdotadas são super-heróis sempre equilibrados e bem-sucedidos. Na prática, indivíduos com potencial cognitivo significativamente acima da média representam cerca de 2% da população. O aprendizado rápido demais pode gerar desmotivação, fazendo com que a criança seja rotulada como "problemática" ou "sabichona".
A psicóloga Arlete Santana explica que o diagnóstico vai muito além de um teste de QI (Quociente de Inteligência). A avaliação analisa comportamentos e a hiperexcitabilidade cerebral (funcionamento neurológico de alta intensidade). Essa condição gera sensibilidade extrema, dificuldades de socialização e até sofrimento psíquico diante de situações como o bullying.
O impacto atinge inclusive a rotina física. O nutricionista Advalter de Assis, da Fundação Helena Antipoff, alerta que pessoas superdotadas podem apresentar seletividade alimentar e maior propensão a alergias. Por isso, o tratamento exige o trabalho de uma equipe multiprofissional.
O que muda na prática
Para as famílias, o diagnóstico correto funciona como um mapa para evitar o sofrimento emocional e garantir o desenvolvimento saudável. O SUS (Sistema Único de Saúde) oferece suporte estruturado para acolher esses casos no Brasil por meio da Raps (Rede de Atenção Psicossocial).
- Porta de entrada: A UBS (Unidade Básica de Saúde) realiza o primeiro acolhimento e faz o encaminhamento necessário dentro da rede de saúde.
- Atendimento especializado: O CAPS (Centro de Atenção Psicossocial) atende de portas abertas, sem precisar de encaminhamento prévio, para casos de sofrimento psíquico intenso.
- Apoio estadual: A SES-MG (Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais) articula a atenção primária e os serviços de saúde mental.
- Urgências: O SAMU pelo número 192 e as UPAs (Unidades de Pronto Atendimento) atendem emergências de saúde.
Segundo Viviane Maciel, referência em Saúde Mental da Superintendência Regional de Saúde de Belo Horizonte, a rede busca assegurar o acompanhamento integral. O ponto-chave é entender que cuidar da neurodivergência é uma questão de cidadania, garantindo que talentos floresçam sem deixar a saúde mental de lado.
