Vênus passa a girar ao contrário por marés e atmosfera, diz estudo

Cientistas brasileiros do IAG-USP explicaram por que Vênus gira no sentido oposto ao da Terra: não precisou de colisão cósmica nenhuma. O trabalho aponta que a rotação retrógrada nasce de uma briga contínua entre marés gravitacionais e efeitos térmicos da atmosfera.
De um lado, a atração do Sol gera marés que puxam o planeta pra um estado de sincronização com o movimento orbital. Do outro, a atmosfera de Vênus é tão densa que, ao ser aquecida de forma desigual pela radiação solar, ela cria deformações e um torque atmosférico que acelera a rotação no sentido contrário.
O detalhe que destrava a história é o “como chegou lá”: o estudo diz que o planeta passa por uma bifurcação em forquilha (pitchfork bifurcation). Sem uma atmosfera significativa, existiria um único estado estável. Com a influência atmosférica crescendo, o sistema perde estabilidade e se desdobra em dois novos estados estáveis, e um deles pode evoluir até virar rotação retrógrada.
O pesquisador Sylvio Ferraz Mello, professor do IAG-USP e autor principal, resume a ideia: não é um evento instantâneo tipo “colisão e pronto”. É um processo contínuo, sustentado pela própria atmosfera. E, se Vênus ficasse sem atmosfera, as marés sozinhas fariam o planeta voltar à rotação direta em menos de 1 milhão de anos.
Por que isso é importante
- A explicação troca o “acidente cósmico” por um mecanismo previsível, o que ajuda a modelar outros planetas com atmosferas parecidas
- O estudo sugere que rotação retrógrada pode ocorrer com mais frequência em exoplanetas na zona habitável do que a gente imaginava
- Isso muda como a ciência interpreta a diversidade de planetas já observados
No fim, Vênus não é um mistério quebrado do Universo. É só o Universo fazendo conta — e a atmosfera ganhou a briga.
