Adriana Costa

Adriana Costa

Country Head da Siemens Healthineers no Brasil, onde lidera a operação da empresa de tecnologia médica no país.Country Head da Siemens Healthineers no Brasil

Quando meses valem anos: o impacto do diagnóstico precoce

O diagnóstico tardio do câncer de pulmão mostra como meses de espera podem custar anos de vida. A autora defende uma jornada coordenada, dados clínicos confiáveis, inteligência artificial com governança e parcerias para antecipar o cuidado.

27/10/2026, às 21:00

Atualizado há 2 horas

Quando meses valem anos: o impacto do diagnóstico precoce

O Brasil aprendeu a discutir o custo do tratamento. Ainda olhamos com menos atenção para o outro lado dessa conta: o que perdemos quando o diagnóstico não chega precocemente. É uma conta silenciosa, medida não apenas em recursos financeiros, mas em oportunidades de tratamento, produtividade, qualidade de vida e, sobretudo, tempo.

O câncer de pulmão ajuda a dimensionar esse desafio. No Brasil, a doença ainda é frequentemente identificada em estágio avançado, quando as possibilidades terapêuticas são mais limitadas. Ao mesmo tempo, sabemos que identificar o câncer mais cedo pode mudar radicalmente sua trajetória. Entre um diagnóstico precoce e um diagnóstico tardio existem, muitas vezes, meses. No desfecho para o paciente, esses meses podem representar anos.

Vale dizer com clareza: não se trata de apontar responsáveis. Trata-se de reconhecer que estamos diante de um desafio de acesso, capacidade e coordenação grande demais para ser resolvido por um único ator. A OMS reconhece que atrasos ou barreiras no acesso ao diagnóstico estão associados a menores chances de sobrevivência, maior complexidade do tratamento e custos mais elevados para os sistemas de saúde. Estudos realizados em países de alta renda, citados pela própria organização, indicam que os custos do tratamento de pacientes com câncer diagnosticado precocemente podem ser de duas a quatro vezes menores do que os daqueles diagnosticados em estágios avançados.

A boa notícia é que parte do caminho já é conhecida. Em abril deste ano, o INCA iniciou um estudo para avaliar a viabilidade de um programa de rastreamento de câncer de pulmão no SUS, utilizando tomografia computadorizada de baixa dose em populações de alto risco. A iniciativa deverá gerar evidências para futuras diretrizes nacionais. Mas há uma discussão ainda maior por trás do rastreamento.

Diagnóstico precoce não é simplesmente fazer um exame mais cedo. É organizar toda uma jornada para que o tempo ganho na detecção não seja perdido entre a suspeita, a confirmação diagnóstica e o início do tratamento. De pouco adianta identificar uma alteração precocemente se o paciente entrar, em seguida, em uma sequência de esperas, encaminhamentos e exames desconectados. Em saúde, acesso também precisa significar continuidade.

É justamente aí que acredito estar uma das grandes oportunidades de transformação do sistema de saúde brasileiro. Precisamos de dados clínicos confiáveis e padronizados, capazes de acompanhar essa jornada e sustentar melhores decisões. Precisamos de inteligência artificial com governança, validada em populações reais e integrada à rotina assistencial. Precisamos formar profissionais e, ao mesmo tempo, criar condições para que o conhecimento especializado alcance regiões onde ele não está fisicamente disponível. E precisamos de modelos de financiamento que reconheçam o valor da prevenção e do diagnóstico precoce, não apenas o custo do procedimento.

Em um país de dimensões continentais, ampliar o acesso também exige utilizar melhor a infraestrutura que já temos. Isso passa por integrar informações, reduzir redundâncias, automatizar tarefas e permitir que os profissionais de saúde concentrem seu conhecimento nos casos que mais necessitam dele. Tecnologia, nesse contexto, não substitui pessoas. Ela pode devolver às pessoas um dos recursos mais escassos da saúde: tempo.

Há ainda uma dimensão de equidade. O CEP de uma pessoa não deveria determinar a rapidez com que uma doença é identificada ou sua possibilidade de receber o tratamento adequado. A transformação digital pode contribuir para conectar redes assistenciais, distribuir conhecimento e aproximar centros especializados de pacientes que hoje estão distantes deles. Democratizar o diagnóstico não significa necessariamente reproduzir a mesma estrutura em todos os lugares. Significa conectar melhor aquilo que já temos.

Isso exige também uma visão mais madura sobre inovação. Não basta perguntar o que uma nova tecnologia consegue fazer. Precisamos perguntar se ela melhora um desfecho relevante, se funciona na rotina clínica, se pode chegar à escala necessária e se ajuda a reduzir, em vez de ampliar, desigualdades. A verdadeira medida da inovação em saúde não está na sofisticação de uma solução, mas no impacto que ela consegue produzir quando encontra a vida real.

Nenhuma dessas peças se resolve isoladamente. Por isso, parcerias entre hospitais, academia, indústria, gestores públicos e associações de pacientes tornam-se cada vez mais importantes. Um exemplo recente dessa lógica é o Centro Colaborativo de Inovação iniciado pelo Einstein Hospital Israelita e pela Siemens Healthineers, em São Paulo. A iniciativa prevê cinco anos de desenvolvimento e validação de tecnologias voltadas à medicina de precisão. Seu primeiro projeto, dedicado ao câncer de pulmão, investiga se inteligência artificial e radiômica podem identificar em exames de imagem padrões associados a mutações tumorais relevantes para a definição do tratamento.

Mais importante que uma tecnologia específica, porém, é o modelo que iniciativas como essa representam: problemas reais da assistência orientando pesquisa; pesquisa produzindo evidência; e evidência abrindo caminho para soluções que possam ganhar escala. É nesse encontro entre ciência, tecnologia e prática clínica que a inovação passa a gerar valor para a sociedade.

Falamos muito sobre longevidade. Viver mais é uma das grandes conquistas da nossa geração. Mas o desafio que se apresenta agora é outro: não basta acrescentar anos à vida. Precisamos acrescentar saúde aos anos. E talvez seja essa a mudança de perspectiva mais importante. O futuro da saúde não será definido apenas pela nossa capacidade de tratar doenças cada vez mais complexas. Será definido também pela capacidade de identificá-las antes, conectar melhor as etapas do cuidado e fazer com que os avanços da medicina cheguem a mais pessoas. Se queremos transformar anos em saúde, o caminho começa antes do tratamento. Começa quando transformamos tempo em diagnóstico, diagnóstico em decisão e decisão em uma oportunidade real de viver mais e melhor.

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