Pela primeira vez, cirurgia reconstrói clitóris após câncer de vulva

Técnica inédita adapta método usado em vítimas de mutilação genital e busca corrigir lacuna histórica na saúde sexual feminina. Procedimento acrescenta cerca de 15 minutos ao tempo de operação.
Pela primeira vez, pesquisadores desenvolveram uma técnica para reconstruir o clitóris de mulheres submetidas ao tratamento de câncer de vulva. A reconstrução da vulva como um todo já é realizada há anos para preservar as funções urinária e vaginal. No entanto, a reparação do órgão cuja função primária é o prazer sexual ainda não recebia a mesma atenção da medicina.
O novo método foi descrito em artigo publicado na revista científica Gynecologic Oncology por pesquisadores do Centro Médico da Universidade Radboud, na Holanda. Assinam o trabalho a ginecologista oncologista Mieke ten Eikelder e o cirurgião plástico Tim Nijhuis.
"Até agora, a lesão era simplesmente fechada, e o clitóris desaparecia sob uma camada de pele, com pouca atenção à qualidade de vida ou à possibilidade de o orgasmo ainda ser alcançado", explicou Ten Eikelder no estudo.
O impacto do diagnóstico e a lacuna histórica
A retirada do tumor na região vulvar frequentemente exige a remoção parcial ou total do clitóris. Isso causa perda da sensibilidade erógena, alteração da imagem corporal e profundo impacto psicossexual nas pacientes.
O câncer de vulva é raro e responde por cerca de 5% dos tumores ginecológicos no mundo. No Brasil, o DataSUS registra entre 1.500 e 2.000 casos anuais. Embora seja mais comum em mulheres acima de 60 anos, médicos brasileiros e o próprio estudo alertam para um aumento nos diagnósticos em pacientes mais jovens, associação impulsionada pela infecção pelo vírus HPV.
A demora no desenvolvimento de técnicas focadas no prazer feminino reflete o foco histórico da oncologia em priorizar a sobrevida do paciente em detrimento da qualidade de vida pós-tratamento.
"O interessante é que técnicas de preservação e reconstrução peniana após o câncer são estudadas e utilizadas há décadas. Esse trabalho mostra que precisamos dedicar à reconstrução genital feminina a mesma atenção que historicamente dedicamos à masculina", destaca Alexandre Piassi Passos, diretor da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP). As primeiras descrições de cirurgias reconstrutivas para o pênis datam de 1987.
Como funciona a técnica
A anatomia do clitóris apresenta desafios técnicos específicos: o órgão possui cerca de 10 centímetros de extenso corpo interno cercado por vasos e nervos, mas apenas a ponta (a glande) fica visível na superfície.
Para realizar a reconstrução, os médicos adaptaram o método Foldès, originalmente criado para operar mulheres vítimas de mutilação genital feminina.
Após a remoção do tumor com margem de segurança, o cirurgião solta o ligamento que prende o clitóris ao osso do púbis. Isso permite reposicionar o tecido restante do órgão sem lesionar os nervos e vasos essenciais para a sensibilidade.
Em seguida, a nova ponta é coberta com um enxerto retirado da mucosa interna da bochecha — tecido semelhante ao da vulva — e uma capa de pele é refeita para simular o prepúcio.
O procedimento acrescenta cerca de 15 minutos ao tempo total da cirurgia, pois a retirada da mucosa bucal é feita pelo cirurgião plástico de forma concomitante à atuação do ginecologista na área vulvar.
