Brasil é o segundo país a aprovar remédio que mira uma proteína do tumor de pulmão

Nem todo câncer de pulmão é igual. É por isso que o remédio aprovado pela Anvisa nesta semana vale para um grupo bem específico de pacientes, que só pode ser identificado por um exame do tumor.
A agência concedeu o registro do Emrelis, nome comercial do telisotuzumabe vedotina, da farmacêutica AbbVie. A autorização é a Resolução-RE nº 4.078, de 16 de outubro de 2026, publicada no Diário Oficial da União na segunda-feira (19). Segundo a AbbVie, o Brasil é o segundo país a aprovar o tratamento, depois dos Estados Unidos, onde a FDA, a agência reguladora americana, deu aprovação acelerada em maio de 2025 (dado da nossa apuração: FDA).
O câncer de pulmão é o que mais mata entre todos os tipos de câncer no Brasil. Em 2024 foram 32.465 mortes, segundo o Atlas de Mortalidade do Inca (dado da nossa apuração: Inca).
Para quem é o novo remédio para câncer de pulmão?
O telisotuzumabe vedotina é indicado para adultos com câncer de pulmão de não pequenas células, do tipo não escamoso, localmente avançado ou metastático. É para quem já recebeu tratamento antes e tem alta expressão da proteína c-Met no tumor. Essa alta expressão precisa ser confirmada por um exame específico do tecido do tumor.
Ou seja: o remédio não serve para todos os casos de câncer de pulmão, nem para quem está começando o tratamento.
Como o remédio funciona?
A c-Met é uma proteína que fica na superfície das células e pode aparecer em excesso em alguns tumores. Segundo a AbbVie, esse excesso está associado a um pior prognóstico.
O remédio é um conjugado de anticorpo e fármaco. Funciona como uma entrega com endereço certo: o anticorpo reconhece a c-Met e leva até essas células uma substância capaz de destruí-las, poupando mais as células que não têm a proteína em excesso. A aplicação é feita na veia, por cerca de 30 minutos, a cada duas semanas.
Quais foram os resultados nos estudos?
A aprovação se baseou no estudo de fase 2 LUMINOSITY, feito com pacientes que já tinham passado por outros tratamentos. Entre os que tinham alta expressão de c-Met (em pelo menos 50% das células do tumor), o tumor diminuiu ou desapareceu em 34,6% dos casos, cerca de um em cada três. Nesses pacientes, a resposta durou em média nove meses.
Estudos de fase 2 mostram sinais de eficácia, mas não comparam o remédio com outro tratamento. Nos Estados Unidos, a aprovação acelerada depende de um estudo confirmatório, que ainda está em andamento (dado da nossa apuração: FDA).
Os efeitos colaterais mais comuns no estudo foram formigamento ou dormência nas mãos e nos pés (neuropatia periférica), cansaço, perda de apetite e inchaço. Também houve casos de inflamação no pulmão, o que exige acompanhamento médico durante todo o tratamento.
Quando o remédio chega e ele está no SUS?
Ainda não. O registro na Anvisa não coloca o remédio automaticamente nas farmácias ou nos hospitais. Antes, o preço precisa ser definido pela CMED. Segundo a AbbVie, a expectativa é que o medicamento chegue ao mercado no primeiro semestre de 2027.
O remédio também não está no SUS. Para entrar no sistema público, um tratamento novo precisa ser avaliado pela Conitec, a comissão que analisa a incorporação de tecnologias ao SUS.
Na prática, para quem acompanha alguém com câncer de pulmão avançado, a pergunta a levar ao oncologista é simples: o tumor já foi testado para c-Met? É o médico quem avalia se o tratamento faz sentido para cada caso.
