Doação de órgãos recua no Estado e recusa de famílias passa dos 70%
Publicada em 27 de maio, 2026.
Atualizada em 7 de setembro, às 16:01.

Imagine organizar o almoço de domingo em família, mas ninguém decide quem traz o prato principal até a hora da fome. Na saúde, o silêncio funciona parecido: a falta de conversa prévia sobre doação de órgãos trava o sistema justamente no momento mais crítico.
As doações de órgãos encolheram no início deste ano no Estado devido a um grande obstáculo: a recusa familiar. Segundo a Coordenação do Sistema Estadual de Transplantes, a taxa de recusa das famílias ultrapassa 70%, índice que fica acima da média nacional.
O recuo fica claro na comparação entre os começos de cada ano. Em janeiro de 2025, o Estado registrou 25 doações efetivas. Já em janeiro de 2026, esse número despencou para 11 doações. O ponto-chave é que as notificações de morte encefálica (parada definitiva das funções do cérebro) continuam estáveis. Ou seja, o potencial de doadores existe, mas a recusa familiar, que atingiu 70,3% em janeiro, impede que o processo avance.
Assim como no almoço de domingo, onde o diálogo evita que a comida falte, falar sobre o assunto em vida facilita a decisão dos parentes na hora da dor. Para reverter esse quadro de silêncio, a Secretaria da Saúde do Estado (Sesab) investe em capacitação profissional. No ano passado, a secretaria promoveu 22 cursos voltados para médicos realizarem o diagnóstico seguro de morte encefálica. A entidade também ofereceu treinamentos sobre o processo de doação para equipes de diversas áreas, além de ampliar campanhas de divulgação com parceiros.
Na prática, a fila de espera não funciona como um sorteio comum. Ela segue critérios estritamente técnicos e atende de forma unificada tanto pacientes do SUS (Sistema Único de Saúde) quanto da rede privada de saúde.
A distribuição dos órgãos segue regras rigorosas:
- Critérios técnicos: a seleção avalia a tipagem sanguínea, a compatibilidade genética, o peso e a altura do doador e do receptor.
- Casos graves: pacientes em estado crítico de saúde recebem prioridade no atendimento.
- Desempate: se os critérios técnicos forem idênticos, a vaga é decidida pela ordem cronológica de cadastro (ordem de chegada).
Existem situações extremas de risco de vida que garantem prioridade imediata. É o caso de doentes renais que perderam o acesso para diálise (filtração do sangue) ou cardiopatas que necessitam de assistência circulatória. A insuficiência hepática aguda grave (falência rápida do fígado) e a rejeição de órgãos recentemente transplantados também colocam o paciente no topo da lista.
O que muda na prática
Para quem aguarda um transplante, cada conversa familiar sobre o tema pode significar a diferença entre a vida e a morte. O coordenador do sistema estadual, Eraldo Moura, reforça que o desconhecimento da sociedade e a negativa familiar continuam sendo as maiores barreiras para salvar vidas. Explicar o seu desejo de ser doador para os seus parentes hoje é o primeiro passo para garantir que a engrenagem dos transplantes volte a funcionar com agilidade.
