Pesquisadoras brasileiras investigam relação entre violência e risco de demência em mulheres
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A violência sofrida por mulheres ao longo da vida, especialmente durante a infância, pode estar diretamente associada a um risco elevado de desenvolver demência na velhice. Agressões físicas, abusos sexuais e traumas psicológicos contínuos têm potencial para provocar alterações na estrutura cerebral, afetando a memória e a cognição.
Uma revisão sistemática liderada pelas neurologistas brasileiras Raquel Molina (UFF) e Sephora Almeida (Hospital Alemão Oswaldo Cruz), apresentada na Conferência Internacional da Associação de Alzheimer (AAIC), em Londres, analisou o impacto de diferentes formas de agressão na saúde feminina.
Risco dobrado nos casos graves de infância
Na análise combinada de estudos, mulheres expostas à violência física e sexual apresentaram risco 50% maior de desenvolver quadros demenciais em comparação àquelas sem histórico de abusos. A associação mostrou-se mais acentuada quando as agressões ocorreram na infância: mulheres que sofreram abuso físico ou sexual grave na infância tiveram o risco praticamente dobrado.
Em contrapartida, os dados sobre violência sofrida exclusivamente na vida adulta (por parceiros íntimos) ainda são menos conclusivos, em parte devido à subnotificação e à mortalidade precoce das vítimas, que muitas vezes não chegam à idade de desenvolvimento da doença.
Como o trauma afeta o cérebro?
Segundo as pesquisadoras, as agressões físicas podem causar lesões cerebrais diretas por traumatismos cranianos ou sufocamento. Estudos indicam que o trauma está associado à atrofia cerebral e à redução do volume do hipocampo — área fundamental para a memória e afetada no Alzheimer.
Já a violência psicológica atua por meio do estresse crônico. O estado constante de alerta e medo libera substâncias que mantêm o cérebro em processo inflamatório contínuo, favorecendo o declínio cognitivo e transtornos de humor.
Próximos passos da pesquisa
Embora os dados levantem alertas importantes, as autoras ressaltam que ainda não é possível definir a violência como fator de risco independente para demência, exigindo novos estudos longitudinais. A investigação também busca responder por que a demência é mais prevalente em mulheres, expandindo o debate além das causas hormonais e incluindo os fatores sociais e ambientais de proteção à saúde feminina.
