Martha Oliveira

Martha Oliveira

Sou médica e empreendedora dedicada ao estudo do envelhecimento populacional. Atuo em saúde suplementar, acesso, modelos de remuneração e saúde baseada em valor, com foco em melhorar o cuidado às pessoas idosas.

A casa como lugar de cuidado: o que o movimento Moving Health Home nos diz sobre a saúde do futuro

Com a população brasileira envelhecendo rápido, o movimento americano Moving Health Home e experiências europeias mostram que a casa pode virar espaço clínico, desde que tecnologia, equipes multiprofissionais e novos modelos de remuneração redesenhem o cuidado contínuo.

Publicado em Hoje.

A casa como lugar de cuidado: o que o movimento Moving Health Home nos diz sobre a saúde do futuro

Durante mais de um século, organizamos a saúde em torno de um endereço: o hospital. Para lá iam o paciente, a tecnologia, os profissionais e, quase sempre, o orçamento. Esse modelo trouxe conquistas enormes, mas foi desenhado para um mundo mais jovem, marcado por doenças agudas e episódicas. O mundo mudou. E a pergunta que ganha força entre gestores, operadoras e formuladores de políticas é simples e incômoda: e se o cuidado deixasse de acontecer em episódios, dentro de instituições, e passasse a acompanhar as pessoas de forma contínua, onde elas vivem?

Um país que envelhece mais rápido do que se preparou

O Brasil ajuda a entender a urgência. Entre 2000 e 2023, a parcela de pessoas com 60 anos ou mais quase dobrou, de 8,7% para 15,6% da população — de 15,2 milhões para 33 milhões de idosos. E a curva não para: o IBGE projeta que a expectativa de vida, de 76,4 anos em 2023, chegue a 83,9 anos em 2070, quando cerca de 37,8% dos brasileiros serão idosos.

Viver mais é uma vitória civilizatória. Mas, para muitos, significa conviver por mais tempo com doenças crônicas, múltiplos medicamentos e perda gradual de autonomia. É um perfil de necessidade que não se resolve em uma consulta a cada seis meses ou em idas ao prontosocorro quando algo já deu errado. Ele pede continuidade, vínculo e acompanhamento ao longo do tempo — o que chamamos de cuidado longitudinal.

Moving Health Home: a casa como espaço clínico

Foi essa leitura que motivou, nos Estados Unidos, o nascimento do movimento Moving Health Home. A coalizão reúne grandes sistemas de saúde, prestadores de cuidado e empresas de tecnologia, entre eles Intermountain Healthcare, Ascension, Amazon Care, Signify Health, Landmark Health, Dispatch Health, Elara Caring e Home Instead. O objetivo declarado é mudar a forma como os formuladores de políticas enxergam o domicílio enquanto local de atenção à saúde.

A tese central é que a casa pode deixar de ser apenas o lugar para onde o paciente volta depois do atendimento e passar a ser parte da própria rede de cuidado — incluindo atenção primária, saúde mental e manejo de doenças crônicas. E o que torna isso possível agora, e não há vinte anos, é a tecnologia: os fundadores apontam telessaúde, monitoramento remoto, terapias digitais e compartilhamento de prontuários como os elementos que aproximam o cuidado domiciliar daquele oferecido em serviços de saúde.

O argumento demográfico está no centro do discurso. Um dos fundadores lembrou que mais de 17% dos beneficiários do Medicare convivem com seis ou mais condições crônicas, e que um cuidado centrado na pessoa, dentro de casa, é essencial para lidar com necessidades tão complexas. A pauta já produz efeitos concretos: em 2026, o Congresso americano estendeu por mais dois anos as flexibilizações de telessaúde do Medicare, enquanto os defensores seguem pressionando para torná-las permanentes.

A Europa no mesmo caminho

Do outro lado do Atlântico, o diagnóstico é parecido. Hoje, um em cada cinco europeus tem mais de 65 anos, e as condições crônicas respondem por dois terços da ocupação de leitos hospitalares no continente — um retrato claro de um cuidado que chega tarde demais. A resposta tem sido apostar no cuidado em casa como eixo do sistema: segundo a OCDE, o gasto com cuidados de longa duração já gira em torno de 1,8% do PIB e segue subindo, e a atenção domiciliar aparece como a alternativa mais sustentável.

No Reino Unido, a Cera, uma das maiores operadoras de cuidado domiciliar da Europa, usa planos de cuidado digitais apoiados por inteligência artificial para identificar precocemente sinais de piora em idosos; a empresa relata ter reduzido pela metade as internações entre maiores de 65 anos de alto risco. Pesquisadores europeus também vêm defendendo o uso de monitoramento remoto de sinais vitais, de atividades do dia a dia e da adesão a medicamentos, combinado a assistentes digitais, para dar continuidade ao cuidado e evitar que o paciente se perca entre um serviço e outro.

Redesenhar, não apenas transferir

Não se trata de tirar o paciente do sistema nem de transferir silenciosamente para as famílias um cuidado que elas não têm condições de prestar. A tecnologia sozinha também não resolve: um sensor que gera dados sem que ninguém os acompanhe é só mais um aparelho na sala. O movimento só faz sentido com redesenho — equipes multiprofissionais que conhecem o paciente, coordenação entre os níveis de atenção, modelos de remuneração que valorizem o acompanhamento contínuo e não apenas o procedimento, e apoio real a quem cuida.

O desafio agora é mudar a pergunta: em vez de “o que fazer quando o paciente piora?”, passar a perguntar “o que precisamos acompanhar, todos os dias, para que ele não piore?”. A saúde do futuro provavelmente terá menos paredes e mais vínculos. Para uma população que envelhece, talvez não exista inovação mais importante do que essa: usar a tecnologia para estar presente, de forma contínua, onde a vida acontece.

Banner

Mais colunas

Martha Oliveira