Cientistas brasileiros recriam células de centenários para decifrar a longevidade
Publicada em 26/10/2026, às 21:00

Como o corpo humano consegue atravessar um século inteiro de vida mantendo a saúde? Para responder a essa pergunta, cientistas da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) estão multiplicando células de brasileiros centenários e supercentenários (aqueles que já passaram dos 110 anos) dentro do laboratório.
A pesquisa já coletou amostras de 251 idosos de todas as regiões do país e quer atingir a marca de 500 participantes. O objetivo é mapear a imensa diversidade genética do Brasil, que hoje conta com mais de 37 mil pessoas acima dos 100 anos.
Como funciona a "viagem no tempo" das células?
A partir de poucas gotas de sangue colhidas dos idosos, os geneticistas aplicam uma tecnologia avançada chamada células iPS (células-tronco induzidas). Esse método consegue "fazer a célula voltar no tempo":
A célula adulta extraída do sangue é reprogramada até voltar ao estado embrionário;
Em seguida, ela é estimulada a se transformar em novos tecidos, como neurônios, fibras musculares, células do coração e do sistema de defesa;
Isso permite que os médicos analisem no laboratório como os órgãos dessas pessoas reagem a doenças e ao passar dos anos.
Os segredos já descobertos no corpo dos centenários
Segundo a geneticista Mayana Zatz (USP) e a imunologista Ana Caetano Faria (UFMG), que lideram os estudos, os dados preliminares apontam três pilares principais para a vida longa:
Músculos bem preservados: Os músculos funcionam como uma central metabólica do corpo. A análise dos genes dos centenários ajudará a entender como manter a força muscular, que pode ser fortalecida com exercícios e boa alimentação.
Imunidade inteligente: Com o envelhecimento, o corpo perde certas células de defesa (linfócitos T). No entanto, o organismo dos centenários compensa essa perda aumentando as células chamadas Natural Killer (NK), garantindo uma "guarda geral" para combater vírus e infecções.
Resiliência ao estresse: A maioria dos superidosos teve uma vida difícil e enfrentou guerras, epidemias e crises. O corpo e a mente dessas pessoas desenvolveram uma alta capacidade de adaptação e tolerância a frustrações, o que evita que o estresse destrua o organismo por dentro.
Sem fórmulas mágicas
As pesquisadoras alertam que não existe uma "pílula da juventude" ou um alimento milagroso. Embora a genética corresponda a mais de 50% da longevidade — especialmente após os 90 anos —, hábitos saudáveis como atividade física regular, alimentação fresca, hidratação e bom convívio social continuam indispensáveis.
A pesquisa reforça que a longevidade brasileira é rica justamente porque existem múltiplos caminhos e combinações de genes para se envelhecer com saúde.
