Envelhecimento é doença? Fiocruz discute terapia e vira cuidado no SUS
Publicada em 28 de maio, 2026.
Atualizada em 19 de julho, às 22:01.

Se a vida fosse uma panela de pressão, o envelhecimento seria aquela fase em que tudo começa a “acumular calor” no corpo e muda a forma como a saúde é cuidada. Foi com essa virada de chave que participantes do I Encontro Anual da Rede Fio-Meta, na Fiocruz, colocaram na mesa uma pergunta dura: envelhecimento é parte do funcionamento do organismo ou uma doença em si?
A discussão puxou duas linhas. Uma enxerga o envelhecimento como etapa da vida. A outra classifica como enfermidade. No meio disso, o encontro conectou o tema à gerociência (área que estuda o envelhecimento) e a alvos moleculares, como o metabolismo celular (como as células produzem e usam energia e substâncias).
Na palestra de abertura, “Metabolismo energético e envelhecimento – o eixo NAD+/CD38 como paradigma molecular e social”, a farmacêutica Juliana Camacho-Pereira, do Instituto de Bioquímica Médica da UFRJ, explicou que envelhecer envolve perda progressiva de integridade fisiológica e funcional, o que aumenta a vulnerabilidade à morte. O ponto conceitual ficou intencionalmente em aberto: o que define, no fim, se o envelhecimento entra ou não no campo de “doença”.
E aí vem a consequência prática do debate. Se existir terapia para o envelhecimento, o que isso significaria para assistência? Um grupo sustenta que pode haver tratamento biologicamente orientado, que o envelhecimento é causa importante de doenças relacionadas à idade e que há terapias aprovadas. Do outro lado, a cautela aparece com uma frase direta: “Não queremos incluir pessoas idosas nessa categoria”. Na prática, a diferença mexe com diagnóstico, cuidado e o modo de decidir quem entra ou não em certos enquadramentos.
O motivo de o tema estar acelerando não é só conceitual. Em 25 anos, cerca de 25% da população global deve ter mais de 60 anos. Na América Latina e no Caribe, a expectativa para 2100 fica 32% a 40% acima dessa idade. No Brasil, o peso do sistema de saúde vem junto: 70% da população idosa usa o SUS e tem pelo menos uma doença crônica. Com isso, planejamento e governança viram parte do cenário real.
A proposta da rede é costurar conhecimento. Para a vice-presidente de Pesquisa e Coleções Biológicas da Fiocruz, Alda Maria da Cruz, a força está em ligar linhas com conexão direta, como diabetes e leishmanioses, ou aproximar doenças infecciosas do desenvolvimento de cânceres. O encontro foi organizado pelo Programa de Pesquisa Translacional (PPT) da VPPCB/Fiocruz.
O que muda na prática
A Rede Fio-Meta diz que quer transformar conhecimento em cuidado ao discutir tecnologias emergentes, governança, infraestrutura e evidência clínica. O objetivo declarado é levar resultados para enfrentar doenças crônicas não transmissíveis, inclusive condições metabólicas, com foco em apoiar soluções para o SUS.
- Público-alvo: 70% dos idosos que usam o SUS e têm ao menos uma doença crônica
- Integração em rede: conexão entre diabetes e leishmanioses e entre doenças infecciosas e cânceres
- Área de pesquisa: gerociência e alvos como o metabolismo celular
- Direção do PPT: desenvolvimento de soluções para o SUS com orientação e articulação de redes
No fim, a pergunta “envelhecimento é doença ou não” importa porque define como a pesquisa translacional tenta chegar em resposta no sistema de saúde. Para quem convive com o cuidado de familiares, o recado é simples: mais clareza para lidar com condições ligadas à idade, com base no que a ciência consegue sustentar.
