Globalização: Milton Santos desarma a ideia de progresso inevitável
Publicada em 26 de maio, 2026.
Atualizada em 16 de outubro, às 17:12.

Globalização costuma soar como promessa pronta: mundo “chegando junto”, técnica avançando e informação circulando. Só que Milton Santos, em Por uma outra globalização (2000), trata essa história como construção e explica por que ela não fecha com a vida real.
A primeira chave do autor é a globalização como fábula. Na prática dessa ideia, o planeta aparece como um espaço único, transparente e acessível para todos, com a sensação de que a velocidade dos fluxos e a instantaneidade das comunicações seriam “evidências” de que o avanço é inevitável. Santos chama atenção para o que essa narrativa esconde: ela não descreve o funcionamento do mundo, ela encobre.
Quando a conversa sai do discurso e vai para o sistema, entra a globalização como perversidade. O ponto deixa de ser “integração” e passa a ser o movimento concreto: em vez de unir, o modelo fragmenta; em vez de distribuir, concentra. E há um detalhe central: a técnica (ou seja, os recursos e ferramentas do mundo contemporâneo) não é neutra. Santos mostra que ela é apropriada por grupos hegemônicos e organizada para sustentar uma lógica de acumulação, reforçando assimetrias.
O território sente isso. Alguns lugares ficam fortemente conectados aos circuitos globais. Outros permanecem marginalizados ou subordinados. E os efeitos sociais ligados a esse funcionamento aparecem como parte do desenho, com desemprego estrutural, precarização do trabalho e exclusão social.
A promessa de universalização também falha no cotidiano. O consumo, vendido como “linguagem” comum da cidadania global, acaba funcionando como mecanismo de diferenciação e exclusão. A informação até pode circular tecnicamente, mas Santos destaca que ela é socialmente controlada, o que limita sua capacidade de democratizar.
O que muda na prática
Santos não para na crítica. Ele abre um terceiro caminho: a globalização como possibilidade. Ou seja: a mesma interdependência que aprofunda desigualdades cria espaço para contestar o arranjo e buscar outra direção.
Um exemplo que ele traz é a figura dos homens lentos, pessoas que não seguem plenamente a lógica acelerada do capital. A aposta é que usos do território baseados em solidariedade, proximidade e reinvenção de recursos podem deslocar a técnica de instrumento apenas de dominação para meio de ação coletiva.
- Foco: globalização como fábula (discurso que encobre) e como perversidade (funcionamento que concentra)
- Virada: globalização como possibilidade, a partir de contestação e práticas do dia a dia
- Ideia-chave: técnica não é neutra; é apropriada e orientada por poder
- Impacto prático: desigualdades viram tema de intervenção, e o “destino” vira processo histórico
Ou seja: se a globalização parece progresso inevitável, Santos pergunta o que faz esse “progresso” chegar tão diferente para cada lugar — e onde cabe interferir.
